quarta-feira, 30 de julho de 2008

Se o capital brasileiro emigra, então por que não os jovens?

PAULO RABELLO DE CASTRO, 59, doutor em economia pela Universidade de Chicago (EUA), é vice-presidente do Instituto Atlântico e chairman da SR Rating, classificadora de riscos. Preside também a RC Consultores, consultoria econômica, e o Conselho de Planejamento Estratégico da Fecomercio SP. Escreve às quartas, a cada 15 dias, nesta coluna




JÁ POSSO dizer que, em minha vida, vi a criação de uma divindade. O Banco Central foi alçado a semideus, por uma sociedade que mitifica suas capacidades e atribuições. Defendi a autonomia funcional do BC nos inflacionários anos 70 e 80, quando quase ninguém sabia o que era "banco central independente" e os que sabiam punham-se apaixonadamente contra. Mas a autonomia então defendida não era a absoluta supremacia de hoje.
A elevação dos juros em 0,75 ponto percentual, na última semana, tem essa conotação de marcar o espaço do mito da autoridade suprema. Antevimos a decisão, não por seus contornos técnicos, mas por seus aspectos "teológicos", pois a taxa brasileira já era, antes do aumento, a maior do mundo, descontada a projeção do núcleo da inflação.
Na teologia do BC, a estabilidade financeira do país está deixada apenas em suas mãos. Segundo a bíblia monetarística, quando as "expectativas inflacionárias" fogem à meta, só resta reprimi-las à força de juros.
É um mundo simples e previsível, mas empobrecedor do potencial brasileiro como nação "emergente".
Na sua coluna de sábado na Folha, Gustavo Franco bem resumiu que o desafio da profissão de economista é criar condições para termos no Brasil juros normais (grifo nosso). E dá sua dica ao concluir que a bactéria do juro alto é a mesma que produziu a hiperinflação brasileira, "só que menorzinha".
Nesse detalhe, discordamos. A bactéria dos juros parece menor, porém mais sutil e poderosa. O financiamento oneroso do déficit público, via dívida e juros altos, provoca uma associação de três elementos anticrescimento. Há o evidente prejuízo fiscal da maior carga de juros (R$ 10 bilhões a mais para cada ponto percentual). O contribuinte paga. Mas há também a perda financeira sobre todo o setor produtivo, que "assimila" o juro mais alto em suas decisões financeiras. E, finalmente, amplia-se a perda social, pelo adiamento de projetos, dos empregos e da geração de riqueza. O juro escorchante é, portanto, mais pernicioso que a inflação, quando estendido por longo tempo.
O "remédio" do BC, com suas doses cavalares de juros, por anos a fio, consumiu, literalmente, trilhões de reais em oportunidades perdidas de criação de empregos, num país em que, segundo caderno especial da Folha do último domingo ("Jovem Século 21"), nada menos que 42% dos jovens de 16 a 25 anos -nosso futuro- gostariam de sair do país em busca de melhores oportunidades. Esses rapazes e moças são os "filhos dos juros". Se o capital brasileiro emigra, então por que não os jovens?
Na raiz do desencanto, intuitivamente percebido pela nova geração, está uma taxa de criação de empregos claramente insuficiente. Erra, por ignorância, o americano Paul Krugman, quando vem aqui -como fez na semana passada- ao palpitar sobre a economia brasileira e afirmar que estamos "aquecidos demais", em clara dissociação da realidade local e do enorme desemprego entre nossos jovens.
Com a mídia que tem, Krugman deveria criticar nosso modelo de crescente gasto público e desmedido encargo financeiro, arcados, penosamente, pelos bovinos contribuintes, cuja seqüela são investimentos públicos e privados mantidos em nível medíocre. De fato, a inflação brasileira foi dominada, mas os juros ainda não são "normais". Esses juros são o estigma da falta de determinação nacional ao tratar a questão da acumulação de riqueza sem adequado planejamento estratégico das políticas econômicas de estabilização. Não espanta que nossos jovens pensem em cair fora.

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